Médica fala dos riscos da depressão e diz que é possível evitar o suicídio

Diariamente 830 brasileiros tentam o suicídio, aponta pesquisa

Redação RADAR 64
Publicado em 15/09/2018 às 11h17

TEXTO SEGUE DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTEÚDO PATROCINADO - Este mês é conhecido como Setembro Amarelo, quando se intensificam as campanhas de prevenção ao suicídio. O uso da cor amarela é em alusão à vida. Segundo dados divulgados pela ONG Centro de Valorização pela Vida (CVV), diariamente 830 brasileiros tentam se matar. Isso dá uma média de uma pessoa buscando o suicídio a cada dois minutos. Segundo a médica Larissa Torres Cunha, desse total, 32 pessoas conseguem se matar.

TEXTO SEGUE DEPOIS DA PUBLICIDADE

A médica recebeu a reportagem do RADAR 64 em seu consultório, no IBMED - Diagnósticos Médicos, em Eunápolis, para falar sobre as principais causas que levam uma pessoa a atentar contra a própria vida. Ela também diz como familiares e amigos podem identificar sinais de transtornos que podem levar a morte.

“Dentre as múltiplas causas e múltiplos fatores de risco é importante caracterizarmos transtorno mental, uso de álcool e drogas ilícitas, endividamento e bullying. Há, ainda, a depressão, uma doença crônica, assim como o diabetes e hipertensão, mas que tem tratamento, podendo ser desde uma psicoterapia a um tratamento com psicólogos e psiquiatra, que vai entrar com a medicação adequada. Depressão não é falta de Deus, não é frescura, não é falta do que fazer, não é falta de roupa. Na verdade, está muito mais relacionada a um excesso de atividades”, informa a médica.

TEXTO SEGUE DEPOIS DO ANÚNCIO
A médica explica que há diferença entre depressão e uma simples tristeza.

“Depressão é quando eu tenho uma tristeza muito grande que eu não sei de onde e porque vem, associada à perda de prazer nas atividades diárias, por mais de 15 dias, com persistência de mais quatro sintomas, que podem ser irritabilidade, insônia ou sonolência, dificuldade de memória, de concentração, de decidir e lentificação. O paciente fica em um estado de cansaço, de fadiga muscular intensa por mais de 15 dias”, comentou.

Segundo a médica, é importante ficar atento a alguns sinais de risco.

Foto: Gustavo Moreira / RADAR 64 
IBMED - Diagnósticos Médicos, em Eunápolis

“Quando falamos de depressão, temos que ficar atentos quando aquela pessoa falar assim: ‘não vejo mais sentido na minha vida’, ‘acho que sou um inútil’, ‘tudo dá errado mesmo, por que vou continuar? ’. Essas são questões são, de fato, um alerta. Muitos ainda acham que quem se mata não fala. Fala sim”, reforça a médica.

Para Larissa, há também sinais comportamentais, como isolamento social, perda ou aumento de apetite e baixa autoestima.

“Hoje em dia nós vemos muito isso, perante toda a pressão da sociedade, de que sejamos perfeitos, inabaláveis”.

Uma pesquisa divulgada em abril mostra que nos últimos cinco anos a incidência de suicídio entre jovens de 12 a 25 anos teve um salto de quase 40%. O suicídio é apontado como a quarta maior causa de morte no Brasil entre homens e mulheres de 15 a 29 anos. 

“Os jovens têm uma dificuldade de trabalhar as questões emocionais. Há, também, nesta época, uma pressão da sociedade e uma mudança muito brusca da infância para a adolescência e da faixa etária da adolescência para adulto. Isso tudo cria expectativas muito grandes e uma pressão. Será que eu vou corresponder? Será que eu estou a altura das expectativas dos meus pais, dos meus familiares, dos meus amigos, das pessoas que eu amo?”, explicou Larissa.

A médica recomenda também que os pais devem ficar atentos aos sinais de depressão na infância.

Foto: Gustavo Moreira / RADAR 64 
Médica afirma que é possível evitar o suicídio

“As crianças têm um jeito sincero de dizer a verdade, mas sem empatia. Isso machuca. Nós vemos muito bullying nas escolinhas. É importante os pais ficarem atentos nestas questões: baixa de rendimento escolar, o professor alertando que seu filho está com dor de cabeça, com dor de estômago, cansado, não está interagindo com outros colegas. Tá brigando com os outros coleguinhas, ficando irritado”, frisa.

“É importante os pais ficarem atentos à depressão nas crianças. Criança, sim, sofre de depressão. É importante os pais fazerem refeições na mesa com os filhos. Conversarem pelo menos de um a cada dois dias. Às vezes, não dá para estar ali e almoçar todos os dias junto, mas a cada dois dias conversar sobre o que aconteceu, sobre as vivências, sobre as frustrações, previne. Fazer uma rede mãe e filho é um fator protetor. Seu filho ter confiança em você. Saber que pode confiar, que pode falar o que ele quiser, que não vai ser julgado, que vai ser ouvido e assistido”, orientou a médica.

“Como lidar com uma pessoa deprimida é uma pergunta muito boa. Na maioria das vezes, dizemos: ‘Tens que sair disso, sua vida está muito boa, tens saúde’, ‘és casada, ou tens pai e tens mãe’. As pessoas sempre têm respostas prontas para justificar para não sentirmos tristeza. Isso está errado, a melhor forma de exercermos a empatia é acolhermos, é ouvir. Você escutar, não achar que é tudo um drama, porque pode ser fatal. Então, é acolher, ouvir e tentar ajudar”, ressaltou a médica.

Larissa adverte que é importante buscar o apoio de profissionais da área de saúde e que a família também deve se envolver no tratamento.

“Não adianta o paciente estar fazendo um acompanhamento médico e não estar fazendo um acompanhamento com um psicólogo. Ou acompanha com um psicólogo e não está acompanhando com um médico. Aí está acompanhando com os dois, mas a família não está integrada, não está inserida naquele contexto. Então você trabalha as questões dentro do consultório e quando o paciente vai para casa ele é bombardeado com informações, com julgamentos que não são verdadeiros”, explicou.

A médica lembra que hoje em dia não há mais desculpas para não buscar uma ajuda, pois existe uma rede de apoios especializada em atender esses tipos de transtornos, acessível a todos.

“O CAPS, que é o Centro de Apoio Psicossocial, funciona super bem aqui em Eunápolis. E tem essa rede de apoio pelo CVV, que é o Centro de Valorização a Vida. Na Bahia, o telefone é o 141, nos demais estados é o número 188. Hoje em dia tem até o chat do CVV. Às vezes, o paciente não quer tratar diretamente com o médico e psicólogo. Então, ele pode estar entrando em contato com o CVV e lá, sem esse estigma, sem esse peso, ele vai acabar entendendo que precisa dessa ajuda médica e psicológica”, recomenda.

A médica concluiu a entrevista observando que é possível evitar o suicídio.

“Existe um dado que nove em cada 10 casos suicídio poderiam ser evitados. Então, sim, tratar o transtorno mental, não só depressão, mas também transtorno ansioso, como esquizofrenia ou TDH (Transtorno de Déficit de Atenção) é um fator protetor e de prevenção”, finaliza. 

SIGA O RADAR 64

RADAR 64© - Todos os direitos reservados 2007 - 2018